Em pequeno artigo publicado na edição de Fevereiro de 2014 da Scientific American, o recado do ano está dado: chegou a hora de desinterditar a psicofarmacologia. De nosso especial interesse dentro da área está a tão aguardada e necessária liberação da ciência psicodélica.
Este artigo confirma o que já foi publicado ano passado na Nature Reviews Neuroscience, dizendo que a classificação atual dos psicodélicos, como o LSD, que nos EUA é inserido na categoria “Schedule 1” impede a ciência de progredir. Como a situação criada pela ONU é muito semelhante, ficam pra trás, em todo o mundo, pesquisas sobre inovadores tratamentos para estresse pós-traumático (com MDMA), cefaléias em salvas, transtorno obsessivo compulsivo (com psilocibina ou LSD) e ainda sobre qual o papel e função dos receptores onde se ligam os psicodélicos em condições como a depressão e a esquizofrenia. Mas vai ainda muito além destes itens que o artigo menciona. Outras aplicações terapêuticas importantes incluem o uso da ibogaína no tratamento da dependência de drogas, que estamos pesquisando aqui no Brasil. E fora da esfera clínica e terapêutica há muitas questões científicas e filosóficas extremamente pertinentes. Por exemplo, qual o papel destes receptores cerebrais em nossa vida cotidiana? Qual o papel da DMT, um dos mais intrigantes psicodélicos, que existe naturalmente em nossos corpos e cérebros? E o que é a consciência? Sem os psicodélicos, dificilmente teremos respostas satisfatórias a estas e muitas outras questões fascinantes.
O artigo enfatiza que o progresso psicofarmacológico em algumas áreas da psiquiatria foi quase nulo desde os anos 50, sendo os antidepressivos de hoje pouco diferentes dos de então. E a situação beira os limites do ridículo: o governo dos EUA declara (e tantos outros acatam…) que as substâncias “Schedule 1” não possuem qualquer potencial terapêutico, mas impede de inúmeras maneiras as pesquisas que poderiam demonstrar tais potenciais.
A Scientific American propõe a medida concreta de reclassificar estas substâncias, nos EUA, como Schedule II, o que imediatamente voltaria a tornar possíveis e viáveis as pesquisas com elas. Sem, entretanto, legalizar o uso para o público geral. Esta modificação, segundo o artigo, permitiria testarem de uma vez por todas se o LSD, a maconha, o MDMA e outras substâncias banidas podem mesmo ser revolucionárias no tratamento de condições psiquiátricas severas.
Um novo pensamento é absolutamente necessário. E os psicodélicos estão aí para serem usados sabiamente como auxiliares nesta jornada há tanto tempo reprimida. A inquisição farmacrática se aproxima do fim.
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