7 motivos pra você apoiar o MDMA no consultório

7 motivos pra você apoiar o MDMA no consultório

 

Em meio a violentas demonstrações de intolerância, ignorância e preconceito, nós estamos vivendo um momento incrível de evolução da consciência. É inegável que existe uma mudança no ar, e o despertar para questões ecológicas, feministas, afrodescendentes, homossexuais, islâmicas e indígenas estão aí para testemunhar por esta transformação.

As novas gerações estão crescendo dentro deste clima de revolução, carregando a sabedoria de que o caminho para este fim é um caminho pacífico, pois já não se trata mais de uma revolução de costumes ou de classes, mas de uma revolução da consciência.

Parte do nosso sofrimento coletivo se deve à cisão entre mente e matéria que caracterizou o mundo moderno e que nos levou a esta era de incertezas, a nossa pós-modernidade. No centro desta cisão está o estranhamento entre ciência e espiritualidade.

Se nós realmente desejamos um mundo mais inclusivo e regenerativo, é necessário primeiro desfazermos as ilusões que residem nos dois lados desta cisão. De um lado o fundamentalismo científico, que insiste que tudo o que existe é matéria e que qualquer solução realista deve abordar exclusivamente as causas materiais de um problema (ou doença).

Do outro lado, aqueles que se identificam com os ideais da Nova Era, cientes do radicalismo materialista, acabam desmerecendo a ciência ou a medicina alopática. Aqui tendemos a ignorar uma lição importante, que a evolução é um aumento, e não uma redução, da complexidade; e que um regresso a um suposto estado original pré-científico ou pré-tecnológico não é possível.

Isto não significa que não devemos lutar pelos direitos dos povos nativos, por exemplo, de viverem em suas terras segundo seus próprios valores, ou mesmo resgatarmos valores que eles preservaram com o intuito de incorporá-los no nosso modo de vida. Pelo contrário, significa que, neste estágio da evolução da consciência em que nos encontramos, o reconhecimento da diversidade é condição a priori para que a evolução tome seu rumo, uma vez que cada ser neste planeta tem o seu presente específico a oferecer à esta comunidade planetária.

A evolução da consciência requer nada menos do que a reintegração entre mente e matéria e em nível ainda não conhecido por nós. Este é o maior desafio dos nossos tempos, o que se dará somente se formos capazes de darmos o primeiro passo em direção à reintegração entre estes dois campos de conhecimento, ciência e espiritualidade. Uma tarefa hercúlea, sim, mas não impossível. É o mínimo que podemos fazer frente aos desafios colossais do Antropoceno.

Um primeiro passo é apoiarmos a ciência psicodélica, e você pode fazer a sua parte doando para a campanha do Plantando Consciência no Catarse, “MDMA no consultório”. Se você é da linha mais ecológica, apoiador da medicina da floresta como eu, e não vê exatamente onde psicodélicos sintéticos em ambientes sintéticos podem se encaixar nos seus valores, eu ofereço aqui 7 motivos de porque você deveria apoiar esta campanha:

 

1) ALCANCE

O ritual tradicional de cura com ayahuasca, por mais eficiente e holístico que possa ser, não será regulamentado como prática medicinal legítima pelos órgãos gestores da sociedade. Não dentro do nosso paradigma atual. Os rituais de cura com plantas medicinais, que hoje transitam num limiar nebuloso entre legalidade e ilegalidade, são práticas inseparáveis de uma condição de marginalidade social.

Se para gente como eu e você este caminho foi bravamente desbravado, e  talvez  até funcione melhor nesta condição de semi-obscuridade, para muitos ele não é uma opção. E apesar da riqueza incomparável que as práticas tradicionais oferecem, é apenas através do sistema médico que o paradigma da saúde realmente poderá ser transformado em grande escala.

 

2) LEGISLAÇÃO

Para que o alcance global seja possível, é necessário vencer os entraves legais e burocráticos que regem o sistema médico. Para se regulamentar o uso de uma substância para fins medicinais, uma série de etapas rigorosas deve ser percorrida com sucesso. Para que estas etapas sejam cumpridas, é preciso demonstrar cientificamente (ou seja, através de experimentos que possam ser reproduzidos com o mesmo grau de sucesso do experimento original em diferentes regiões e com diferentes pacientes) que o medicamento tem seu potencial comprovado.

A única maneira conhecida de se demonstrar uma evidência pelo método científico é através de dados quantitativos (que se convertem em números, porcentagens etc). Estes dados só podem ser obtidos se o cientista for capaz de calcular com precisão tudo o que faz, por exemplo, sabendo a dosagem exata e o grau exato de pureza da substância que está administrando ao paciente, e obtendo medições precisas dos resultados.

No caso de enteógenos como a ayahuasca, até a produção da bebida esta 100% imersa em variáveis qualitativas (o preparo ritualizado etc), e a bebida final varia enormemente de um preparo pra outro, de uma região para outra. Ao contrário, o MDMA, como molécula sintética e sem patente que é, ocupa a singular posição de ser a substância ideal para vencer os entraves da quantificação de resultados e empurrar as fronteiras da legislação que regulamenta o uso de substâncias controladas para fins medicinais.

 

3) SAÚDE PÚBLICA

Sem regulamentação, a medicina enteogênica jamais poderá ser incluída no sistema de saúde e sempre será vista com antipatia ou mesmo proibicionismo pelo sistema médico-legal. Por que isto importa? Para gente como eu e você, talvez não importe muito. Nós temos a nossa rede de contatos na medicina alternativa, mesmo que muitas vezes no limiar entre a legalidade e uma situação dúbia. Estamos acostumados com isto, e até nos sentimos seguros assim, caminhando sob o luar.

Mas para a maior parcela da população, que não teve a oportunidade de ser iniciado nesta descoberta, ou que se apega rigidamente ao status quo, esta jamais será uma opção. Se a medicina psicodélica for regulamentada para uso clínico, ela eventualmente poderá ingressar no sistema de saúde, como fez a acupuntura, dissolvendo os preconceitos que hoje assolam a maioria daqueles que ignoram o que os enteógenos realmente fazem.

Imagine se você pudesse ter respaldo e incentivo para indicar pessoas que jamais se envolveriam com práticas alternativas, mas que enfrentam doenças atualmente intratáveis ou sofrimento crônico, para sessões de terapia psicodélica pagando com seu plano de saúde, ou mesmo pelo SUS? Devaneio ou promissor? O propósito da ciência psicodélica é exatamente abrir o caminho para esta mudança a longo prazo.

 

4) LIBERDADE COGNITIVA

Por mais que a indústria possa ter interesse em tratar os psicodélicos como outras drogas farmacêuticas uma vez que eles forem regulamentados, esta sempre será uma ilusão a ser desfeita durante a sessão terapêutica com o psicodélico em questão. Estas substâncias, pelo próprio fato de serem tão poderosas, são usadas apenas algumas vezes.

Psicodélicos usados em contexto terapêutico facilitam a integração de uma psique fragmentada. A integração, por sua vez, é o caminho para a autonomia cognitiva. Logo, os psicodélicos são uma iniciação sem par no caminho socrático do “conheça-te a si mesmo”. É apenas através do auto-conhecimento que podemos nos tornar verdadeiramente imunes às armadilhas do pensamento grupal. De todas as formas de organização social, o pensamento grupal é a mais suscetível à manipulação política, religiosa e ideológica.

Ademais, a medicina psicodélica também anda na contracorrente do ideal lucrativo, pois não são remédios dos quais os pacientes precisarão depender pro resto de suas vidas. A terapia psicodélica consiste em poucas sessões medicamentosas. O resto do processo é um (longo) caminho de trabalho interno auxiliado por psicoterapia. Então também estamos falando da liberdade química, liberdade da dependência em fármacos prescritos. É por isso que a MAPS, parceira do Plantando Consciência nesta campanha, é uma empresa farmacêutica sem fins lucrativos.

 

5) TRANSFORMAÇÃO PESSOAL

Aqui entramos naquele momento de dúvida. Um certo cinismo pode bater à sua porta. Por quê se preocupar com a regulamentação de uma prática tradicional, ou de medicinas vistas como drogas e que jamais serão aceitas pelo mainstream? Já vi este filme antes! O sistema é corrupto e perverso, ele vai cooptar e destruir tudo o que os povos nativos preservaram com tanta dedicação.

Este tipo de preocupação é compreensível, mas está totalmente equivocado. Ele reflete um tipo de lógica dualista que é consequência do maniqueísmo que prevalesce na sociedade, reforçado pela linguagem da mídia e ensinado em casa, nas escolas e religiões institucionalizadas. A idéia de que o sistema é perverso é a projeção da nossa própria sombra, a qual somos incapazes sequer de reconhecer. Se queremos mesmo um mundo melhor, a pior coisa que podemos fazer é nos resignarmos a um cinismo defensivo, sabotando a nossa capacidade de sonhar este mundo melhor.

Ademais, a lição dos anos 60 foi muito bem aprendida por quem está envolvido na luta política pela regulamentação destas medicinas hoje. Epifanias como “vamos jogar LSD nos reservatórios de água e despertar a população inteira”, popularizadas pelo radicalismo impulsivo de Timothy Leary, já não tem mais liga.

A abordagem é outra. Sai o discurso metafísico, sai a conotação mística e faz-se foco estritamente medicial. A linha de pensamento aqui é “o MDMA como tratamento eficiente pra quem sofre de uma doença intratável pelos métodos disponíveis”, e não uma panacéia pra curar todos os males da humanidade. A direção é de reduzir o foco, de “salvar o mundo” para ajudar quem está sofrendo. A revolução acontece uma pessoa de cada vez.

 

6) POLÍTICA

Da transformação pessoal para a transformação social. Pois uma mudança sutil na regulamentação como esta (se o MDMA for de fato regulamentado pelo FDA até 2021) irá abrir um precedente político e histórico que tem potencial para iniciar, com seu devido tempo, um efeito dominó em todo o paradigma médico-legal (pois a partir de então os psicodélicos não mais serão oficialmente tratados como “alucinógenos”, substâncias com alto potencial para o abuso e nenhum uso medicial, como rege o FDA). Ganha o MDMA, mas ganham também a ayahuasca, a maconha medicinal, a mescalina, a psilocibina, ibogaina etc.

A longo prazo, portanto, estamos falando também no fim dos horrores da Guerra às Drogas. Portanto, contribuir com uma campanha para um estudo clínico com MDMA para TEPT não é apenas uma questão localizada, mas uma atitude política.

 

7) CULTURA DE PAZ

Finalmente, existe ainda um fator de máxima importância nesta história. É importante notar que os testes clínicos com MDMA para TEPT estão sendo recebidos com maior entusiasmo em dois países onde o histórico de guerras se mistura com a própria história dos países em questão (EUA e Israel), e que estes pacientes são os veteranos traumatizados pelas suas experiências. Além de proporcionar alívio para o sofrimento destes veteranos, como esperado em primeira instância, este tipo de terapia assistida com psicodélicos tem potencial de transformar a própria fundação dos valores que compõem a identidade da pessoa.

Fazer terapia psicodélica é um ato de coragem muito maior do que “ir pro pau”. O indivíduo treinado e condicionado a vida inteira para ser um agente de agressão – no Brasil poderíamos pensar em soldados do Bope, a polícia militar do Alckimin ou o macho “daquilo roxo”  – está se sujeitando a nada menos do que ter sua própria condição existencial virada ao avesso, e suas atitudes condicionadas, elas mesmas provocadas por traumas sucessivos, colocadas em cheque.

Eventualmente, estas pessoas não poderão mais compactuar com o ciclo de violência e trauma do qual participaram, primeiro como vítima e depois como perpetradores, o que por sua vez se reflete na nossa atitude em relação à natureza. A transformação é de dentro pra fora, e na floresta ou no consultório, a semente plantanda é a mesma: a da mudança paulatina de uma cultura de dominação para uma cultura de paz e restauração.

 

Contribua com esta campanha, visite a nossa página no Catarse: catarse.me/MDMA.

 

Marcelo Schenberg
Marcelo Schenberg

Marcelo é formado em Jornalismo pela USP, com mestrado em Filosofia, Cosmologia e Consciência e certificação em Ecologia Integrativa, pelo California Institute of Integral Studies. Marcelo has a M.A. in Philosophy, Cosmology and Consciousness, Integral Ecology Track, from the California Institute of Integral Studies.

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1 comment

  1. Leandro J Pedrosa
    Reply

    Eis aqui uma possibilidade maravilhosamente manifestada rumo a um despertar da consciência! Obrigado por estarem contribuindo com isso! Saibam que assim como esta iniciativa, estão na verdade, plantando outras várias sementes de futuras possibilidades para a construção de uma visão menos limitada sobre o uso de tais substânicas para um olhar mais integral da natureza da psique.

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