A Era Vindoura do LSD

A Era Vindoura do LSD

Texto escrito por Amanda Feilding em 12/04/16 para o Huffington Post e traduzido para o Plantando Consciência.

O Programa de Pesquisa da Beckley Foundation/Imperial College London acabou de ter os resultados do primeiro estudo de imagem cerebral publicados no Proceedings of the National Academy of  Sciences. Os achados estão sendo lançados na Royal Society na quarta-feira 13 de abril. Abaixo é um excerto da fala de Amanda Feilding para o evento.


Eu acredito que Albert Hoffman teria se deleitado em ter sua “Criança Problema” celebrada na Royal Society, já que durante sua longa vida, as instituições acadêmicas nunca reconheceram sua grande contribuição. Mas pelo tabu que cerca esse campo, ele certamente teria recebido o Prêmio Nobel. Esse foi o início da era moderna da psicodelia, que mudou a sociedade fundamentalmente.
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Da esquerda: David Nutt, Amanda Feilding & Robin Carhart-Harris

Depois da descoberta dos efeitos do LSD, houve uma explosão de ânimo nos mundos médicos e terapêuticos — mais de 1000 estudos clínicos e experimentais foram conduzidos. Então, no início dos anos 60, o LSD escapou dos laboratórios e começou a se espalhar largamente pelo mundo. Movido por seus insights transformadores, uma evolução cultural aconteceu, cujos efeitos são sentidos ainda hoje. Despertou uma onda de interesse no misticismo Oriental, viver saudável, cuidado com o ambiente, liberdades individuais e nova música e arte, além de muitas outras mudanças. Então as instituições entraram em pânico e se voltaram para a proibição, parcialmente motivados pela juventude Americana se tornando desencantada com a guerra no distante Vietnã.

Horrorizados com a devastação global causada pela guerra às drogas, eu montei a Beckley Foundation em 1998. Com o advento da tecnologia de imagem cerebral, eu percebi que poderia se correlacionar com as experiências subjetivas dos estados alterados de consciência, provocados por substancias psicodélicas, com os achados empíricos. Percebi que somente através da melhor ciência investigando como os psicodélicos agem no cérebro eu poderia superar o equivocado tabu que transformou eles de alimentos dos Deuses em trabalho do diabo.

Minha meta era, e é, reintegrar essas substâncias valiosas na malha da sociedade, e tornar seus benefícios disponíveis quando apropriado. Ao longo dos anos eu comecei muitos programas de colaboração ao redor do mundo. Minha parceria com Dave Nutt foi particularmente recompensadora. Começou em 2005 com um estudo de imagem cerebral dos efeitos da cannabis. Em 2009, quando Dave se mudou para o Imperial College nós começamos o Programa de Pesquisa Beckley/Imperial, com um estudo usando a psilocibina. Nós conseguimos a aprovação porque, ao contrário do LSD, poucos reconheciam o nome.

Em 2014, nós finalmente conseguimos aprovação para um estudo com LSD, algo que estava planejando fazer há muitas décadas. Os resultados desse estudo são muito reveladores. Significantemente, nós encontramos um aumento na comunicação entre diferentes regiões do cérebro que normalmente não se comunicam. Os achados da nossa pesquisa sugeriu a então chamada teoria do cérebro entrópico — onde entropia se refere a atividade caótica ou errática. Nós mostramos que os psicodélicos aumentam a entropia do cérebro para gerar um estado de fluxo de consciência mais desordenado. Nesse estado é mais flexível e menos rígido, tornando as pessoas mais abertas a novos conceitos e ideias. Isso pode levar à quebra de rígidos padrões de pensamento como aqueles encontrados na depressão, vício, e transtorno obsessivo-compulsivo.

Nossos resultados têm implicações para a neurobiologia da consciência e em potenciais aplicações de psicodélicos na pesquisa psicológica, assim como no tratamento de problemas de saúde mental. Nosso estudo piloto com psilocibina para depressão já está fornecendo resultados memoráveis, onde após apenas 2 sessões de tratamento, pacientes com depressão severa, resistente a tratamentos, experimentaram uma rápida e duradoura redução de seus sintomas. Nós levantamos a hipótese de que essa mudança na conexão da rede trazida pelos psicodélicos possui um papel causal nos seus efeitos benéficos.

Esperançosamente, enquanto a nossa investigação e a de outros grupos de pesquisa progridem, o mundo irá lentamente começar a entender que essas incríveis substâncias que interagem tão intimamente com a neuroquímica do sistema humano, podem ser usadas como ferramentas para curar nossas doenças, aumentar nossa iluminação, expandir nossa visão, aumentar nossa compaixão e manejar sabiamente a sociedade e o meio ambiente.

Precisamos reconhecer que a mudança do estado consciente pode ser aumentada e isso, assim como a liberdade de consciência, religião e o direito de desenvolver uma personalidade é um direito humano reconhecido, então também deve haver a liberdade de consciência, conquanto o indivíduo não cause mal a outros.

Parece incrível que algo tão totalmente pessoal como seu nível de consciência possa ser considerado um ato ilegal. Mas existe uma mudança na maré na pesquisa política e cientifica, os quais começaram a reconhecer o valor dessas substâncias.

Nossos estudos começaram a despir os funcionamentos subjacentes à mudança dos estados de consciência. Com um melhor entendimento dos mecanismos por trás desses estados, nós podemos aprender a usa-los melhor, manipulando nossa consciência para o benefício próprio e da sociedade. William James explica que é como ver através dos véus da percepção, Huxley descreve o ego como uma válvula reducionista do cérebro. Quão certo eles estavam. Agora, pela primeira vez, nós vimos a base empírica para essas realizações.

 

Vitor Reinaque
Vitor Reinaque

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2 comments

  1. Arthur de Freitas Andrade
    Reply

    “Nosso estudo piloto com psilocibina para depressão já está fornecendo resultados memoráveis, onde após apenas 2 sessões de tratamento, pacientes com depressão severa, resistente a tratamentos, experimentaram uma rápida e duradoura redução de seus sintomas”. Como algo pode ser “rápido e duradouro” ao mesmo tempo? Pode explicar o que isso significa em termos médicos?

    Pelo que entendi poderia ser que rapidamente melhoraram após o inicio dos efeitos ou tratamento e continuaram assim durante um longo período de tempo. Mas não sei se esse longo período de tempo é em abstinência da substância ou em uso contínuo.

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