A Economia da Intenção

Tradução de texto de Daniel Pinchbeck, postado originalmente no site Conscious Choice em Janeiro de 2009. Imagem por Jouste, cortesia da Creative Commons

Enquanto explorava o xamanismo e estados alterados de consciência, eu descobri o poder da intenção. De acordo com o artista Ian Lungold, que palestrou brilhantemente sobre o calendário Maia antes de sua morte repentina alguns anos atrás, os Maias acreditavam que nossa intenção é tão essencial para nossa habilidade de navegar pela realidade quanto a nossa posição no tempo e espaço. Se você não conhece sua intenção, ou se você está trabalhando com as intenções erradas, você está sempre perdido, e só pode ficar mais desregrado.

Esta idéia se torna extraordinariamente clara ao longo de jornadas psicodélicas, quando seu estado mental se intensifica e é projetado caleidoscopicamente por toda a sua volta. Ao passo que o mundo contemporâneo se torna mais e mais psicodélico, nós estamos recebendo lições duras sobre o poder da intenção em larga escala. Nas últimas décadas, a elite financeira internacional manipulou os mercados de modo a criar obscenas recompensas para si mesmos às custas dos pobres e da classe média ao redor do planeta. Utilizando de derivativos errantes, CDOS habilidosos (Nota do tradutor: Collateralized Debt Obligations, títulos de securitização que têm dívidas como garantia) e outros truques, eles sugaram ainda maiores quantias de mais-valia criada pelos produtores de bens reais e serviços, criando uma economia baseada na dívida que não poderia deixar de desmoronar. Sua cobiça – uma intenção tão obtusa e frágil – agora explodiu em suas faces, aniquilando em câmera lenta o sistema corrupto que foi construído para servi-los.

Oportunidades como esta não costumam aparecer com freqüência, e devem ser aproveitadas quando vêm. Quando o edifício da sociedade colapsa de repente, como está acontecendo agora, é um momento fantástico para artistas, visionários, cientistas loucos e videntes darem um passo à frente e apresentarem uma alternativa bem definida. O que é necessário para tanto, na minha opinião, não é uma proposta moderada ou mudança paliativa, mas uma completa mudança de valores e objetivos, fazendo um reverso polar do paradigma básico da nossa sociedade. Se o nosso modelo social baseado no consumo e dirigido pelo materialismo está se dissolvendo, o que podemos oferecer em seu lugar? Por que não começarmos com as mais elevadas intenções? Por que não oferecer o mais imaginativo e fabuloso redesign sistêmico?

A queda do capitalismo e a crise da biosfera podem induzir a massa ao desespero e à miséria, ou podem impelir uma adaptação criativa e evolução consciente da espécie humana. Nós poderíamos atingir um novo nível de sabedoria e construir uma sociedade global compassiva na qual os recursos são divididos igualitariamente enquanto nós nos devotamos a proteger espécies ameaçadas e a recuperar ecossistemas feridos. Considerando o ritmo ligeiro da comunicação global e das novas tecnologias sociais, esta mudança poderia acontecer com velocidade extraordinária.

Em grande escala, as possibilidades que escolhemos realizar no futuro serão um resultado de nossas intenções coletivas e individuais. Por exemplo, se mantivermos uma crença puritana de que o trabalho é de alguma forma bom por si só, então continuaremos nos esforçando para tentar criar uma sociedade de emprego pleno, mesmo que esses empregos se tornem “verdes”. Uma visão mais radical perceberia a maioria da labuta como algo que poderia se tornar essencialmente voluntário no futuro. O uso apropriado da tecnologia poderia permitir uma transição para uma sociedade de lazer pós-escassez, onde a população global gastaria seu tempo cultivando alimentos, construindo comunidades, fazendo arte, fazendo amor, aprendendo novas técnicas e aprofundando o desenvolvimento pessoal através de disciplinas como a yoga, tantra, xamanismo e meditação.

Uma perspectiva comum é de que o ocidente e o islã estão engajados num conflito insolúvel de civilizações, em que o ódio e o terrorismo só podem piorar. Um outro ponto de vista poderia visualizar a cultura Judaico-Cristã do ocidente encontrando terreno comum e se reconciliando com a raíz esotérica e a pureza metafísica da fé islâmica. Me parece que nós poderíamos encontrar soluções para todos os problemas aparentemente intratáveis dos nossos tempos assim que estivermos prontos para aplicarmos uma nova disposição a eles. Como Einstein e outros notaram, nós não resolvemos problemas empregando o mesmo tipo de pensamento que os criaram, mas, pelo contrário, os dissolvemos quando encontramos um nível diferente de consciência a respeito.

Nós ficamos tão espelhados no nosso mundo humano que perdemos o contato com as outras formas mais antigas de sensibilidade ao nosso redor. Junto aos membros da ONU, talvez pudéssemos treinar um núcleo de diplomatas para negociar com as entidades vegetais, microbiais e fúngicas que sustentam a vida na terra? O micólogo Paul Stamets propõe que criemos uma simbiose com os cogumelos para desintoxicar ecossistemas e melhorar a saúde humana. O botânico Morgan Brent acredita que a flora psicoativa, como a ayahuasca e o peyote, são “plantas professoras”, emissários sensíveis de uma natureza super inteligente, tentando ajudar a espécie humana a encontrar seu nicho na grande comunidade da vida. Quando damos um passo atrás para observarmos a infortunada e vergonhosa atividade de nossa espécie ao redor da Terra, essas idéias não parecem mais tão forçadas.

De fato, a quebra do nosso sistema financeiro não alterou a quantidade de recursos tangíveis disponíveis no planeta. Ao invés de tentarmos reposicionar um sistema injusto e baseado em dívida, que artificialmente mantém a desigualdade e escassez, nós poderíamos partir de um recomeço. Nós poderíamos desenvolver uma intenção diferente para o que deveríamos fazer juntos neste planeta tombado, e instituir novas infraestruturas econômicas e sociais para dar suporte a este intento.

Daniel Pinchbeck é o autor de Breaking Open the Head: A Psychedelic Journey into the Heart of Contemporary Shamanism (Broadway Books, 2002) ("Rachando a Cabeça: Uma Jornada Psicodélica ao Coração do Xamanismo Contemporâneo"), 2012: The Return of Quetzalcoatl (Tarcher/Penguin, 2006) ("2012 – A Volta de Quetzacoatl"), e moderador do site Reality Sandwich.

Veja também (em inglês):  Daniel Pinchbeck no Reality Sandwich   |   Ian Lungold   |   Morgan Brent   |   Paul Stamets