Boghaga

Boghaga

Em Tsogo o verbo boghaga significa “cuidar de”. Na etnomedicina Africana, mais especificamente no Gabão e Camarões, uma planta especial recebeu o nome de eboghe, ou iboga (ou ainda eboga). Para cientistas ocidentais, a planta pertence à família Apocynacae, e recebeu o nome de Tabernanthe iboga. A raiz da iboga é usada há muito tempo em rituais xamânicos da cultura Bwiti para diagnosticar doenças e tratar males da alma. Com elas, os xamãs e os iniciados fazem viagens a reinos incomuns e contactam espíritos, antepassados e obtém informações úteis para o grupo social em que vivem. bwiti-mougongoNo final do século XIX, durante a colonização da África pelas potências Européias, chegaram na França os primeiros relatos sobre o xamanismo Bwiti. E um exemplar da planta foi coletado na região do Gabão e do Congo por um médico da marinha Francesa. E logo no início do século XX, em 1901, uma molécula foi isolada e cristalizada a partir do extrato da raiz e recebeu o nome de ibogaína. Entre 1939 e 1966 um extrato da planta Tabernanthe manii, que também contém a molécula ibogaína, foi comercializado em comprimidos na França. Era vendido e utilizado principalmente por atletas que o utilizavam como estimulante, que supostamente também aumentava a produção de glóbulos vermelhos no sangue. Mas foi justamente na época em que o Lambarene saiu do mercado Francês que o uso mais intrigante e promissor da ibogaína foi descoberto. E de maneira totalmente inesperada.

howard lotsof pintura reducHoward Lotsof era um usuário de psicoativos, e com os amigos gostava de experimentar vários tipos de drogas. Usavam bastante opiáceos, sendo alguns do grupo viciados nas drogas. Certo dia compraram ibogaína de um comerciante, que lhes prometeu uma viagem muito mais louca e forte que qualquer outra coisa. E ele estava certo. O grupo tomou suas doses de ibogaína e alguns tiveram, provavelmente, a viagem mais longa e louca de suas vidas. Profundas alterações na consciência, rememoração de toda a vida e visões de cores, fractais, caleidoscópios e alienígenas são alguns dos efeitos relatados por usuários até hoje. Mas o efeito mais surpreendente de todos só foi notado depois, por Howard Lotsof. Apesar de ser usuário diário de opiáceos, ele só pensou novamente em usar heroína uns 3 dias após a experiência com a ibogaína. E quando isso aconteceu, ele imediatamente se surpreendeu. Aquilo era verdadeiramente incomum. Ele pensava em se drogar o tempo todo, de fato se drogava quase todos os dias. E de repente passou 3 dias com pensamentos em outros lugares, mas não nas drogas.

De lá pra cá a ibogaína se tornou um fenômeno underground nos círculos de abuso de drogas. Mas não porque as pessoas queiram usar ibogaína pra ter viagens loucas, como fez Lotsof, e sim porque as pessoas estão buscando, algumas desesperadamente, se livrar daquilo que a psiquiatria chama de dependência química: o uso abusivo, descontrolado, repetitivo e despropositado de drogas. Hoje estima-se que, no mundo, existem algumas centenas de milhares de usuários de drogas. E uma pequena parcela destes usuários, entre 10 e 20%, são considerados pela psiquiatria como dependentes químicos. Pra estas pessoas, que ficam dependentes, há muitas alternativas de tratamento, tanto no Brasil quanto no exterior. Igrejas, Alcoólicos Anônimos (AA), grupos de ajuda mútua, comunidades terapêuticas e diversas formas de psicoterapia. O problema é que a maioria destas opções, pra maioria dos pacientes, não funciona. Nos melhores casos, cerca de 30% dos participantes de determinado tratamento param de usar drogas. E frequentemente os casos de sucessos ficam abaixo dos 10%.

Outro fator que chama atenção é a quase absoluta falta de tratamentos farmacológicos para a dependência química. Se a medicina se desenvolveu rápida e bruscamente tendo como uma de suas principais ferramentas a farmacologia – comprimidos, pílulas, xaropes e até mesmo injeções – o tratamento da dependência química ficou pra trás. No caso dos opióides, bastante utilizados na América do Norte, há algumas opções de substituição, como por exemplo a metadona, que é oferecida como opção para usuários de heroína e morfina. Mas a metadona também vicia e causa vários problemas de saúde, e é bastante discutível se é um tratamento de fato, ou apenas a troca de uma droga ilegal por uma legalizada. Já no caso das bebidas alcoólicas, cigarro, cocaína e crack, bastante utilizados no Brasil, praticamente não há intervenção farmacológica disponível. Quando as pessoas estão passando pela famosa e difícil fase das fissuras – vontades quase que incontroláveis de usar droga novamente – é comum o uso de fármacos calmantes, os ansiolíticos, ou benzodiazepínicos. Mas isso não é exatamente um tratamento farmacológico para a dependência química propriamente dita, e sim um auxílio para a grande ansiedade que os pacientes sentem nesta fase.

Temos então um problema recorrente em nossa sociedade, de pessoas que abusam de drogas, alguns se viciam, e não temos remédios para ajudá-los a sair desse estilo de vida prejudicial e danoso. E é então como alternativa para ajudar estas pessoas que a ibogaína se destaca. Hoje foi publicado pelo Journal of Psychopharmacology, revista científica especializada em pesquisas variadas sobre substâncias psicoativas, o resultado de nossa pesquisa com ibogaína, conduzida nos últimos 3 anos. De maneira resumida, o que encontramos após entrevistar 75 pacientes dependentes foi que, após participarem no tratamento com ibogaína, 72% foram encontrados abstinentes. Esta taxa de sucesso inclui alguns pacientes que estavam abstinentes, mas com ajuda de outros tratamentos que foram buscar após o tratamento com ibogaína. Mesmo se descontarmos estes da taxa de sucesso, ficamos ainda com 61% dos pacientes se declarando totalmente abstinentes. Isto é ainda mais impressionante quando consideramos que vários destes pacientes já tinham feito outros tratamentos antes, de que começaram a usar drogas muito cedo, antes dos 15 anos (alguns começaram a beber álcool antes dos10) mas não conseguiam parar. E o tempo que ficaram abstinentes é igualmente impressionante: cerca de 5 meses pra quem tomou ibogaínba apenas uma vez e de mais de 8 meses pra quem tomou ibogaína mais de uma vez, sempre no hospital, acompanhado pelo médico responsável.

Mas nem tudo em tratamento de dependência se mede apenas com abstinência. Muitos haviam se divorciado, perdido emprego, abandonado a faculdade e se distanciado dos filhos. Alguns retomaram os estudos, outros voltaram a cuidar dos filhos e teve paciente inclusive que voltou a viver com a ex-mulher. Tudo isso nos indica que de fato a ibogaína tem um potencial extraordinário em ajudar abusadores de drogas a mudarem seu estilo de vida e a se reintegrarem na sociedade, redefinirem suas prioridades e objetivos de vida. Mas fica a questão: como a ibogaína ajuda estas pessoas a largarem um vício que tantos outros tratamentos fracassam? Pra entender melhor o que acontece, precisamos olhar além dos números e escutar estes pacientes, suas histórias, sua experiências psicodélicas com esta poderosa molécula. A jornada interior com a ibogaína é longa, profunda e muitas vezes bem dolorosa, até mesmo apavorante. Mas o resultado pode ser extremamente libertador, caso o paciente esteja disposto a enfrentar seus problemas, dores e traumas. E é aí que a atitude da equipe médica e psicológica pode fazer muita diferença. Algumas destas questões serão tema de um artigo vindouro, mas resultados parciais podem ser acompanhados no vídeo abaixo.

É importante também garantir a segurança de quem toma ibogaína. Em nosso estudo não encontramos nenhum caso de efeitos adversos graves, como surtos psicóticos, e também não houveram fatalidades. Isto é importantíssimo pois há relatos na literatura científica de casos em que o uso de ibogaína resultou em morte. Entretanto, sequer sabemos se nestes casos a substância ingerida foi de fato a ibogaína ou algum extrato contendo outras coisas, ou sequer contendo ibogaína. E também não sabemos a dose. Isto acontece pois em países como os EUA a ibogaína é proibida, simplesmente por ser considerada uma substância psicodélica. E isto leva os tratamentos a serem feitos em condições inadequadas, o que muito provavelmente está relacionado as fatalidades que ocorreram. Mas em uma condição jurídica favorável, como é atualmente no Brasil, verificamos que o tratamento médico feito com ibogaína farmacêutica de pureza bem estabelecida e dose conhecida, em ambiente hospitalar com acompanhamento médico e psicológico, não resultou em qualquer fatalidade ou evento adverso.

Concluímos portanto que sim, a ibogaína possui um potencial extraordinário para ajudar a “cuidar de” pacientes com uso problemático de psicoativos diversos. Sendo este cuidado feito dentro de ambiente terapêutico com acompanhamento médico, substância de procedência conhecida, dose precisamente estabelecida e apoio psicológico para atravessar a profunda jornada interior eliciada por esta substância, podemos estar testemunhando o nascimento de um novo e fascinante tratamento dentro da medicina psicodélica. Mas pra chegar lá, precisamos ainda aprofundar os estudos de segurança e eficácia, o que já estamos elaborando para o futuro próximo das pesquisas do Plantando Consciência.

E desde já fica nosso agradecimento especial a todos os pacientes que, voluntariamente, participaram desta pesquisa! E se você puder colaborar, clique abaixo e faça uma doação pela continuação destes estudos que foram, até o momento, 100% financiados pelo Plantando Consciência (Você também pode doar depositando diretamente em nossa conta corrente no Banco do Brasil, agência 6986-8 conta número 7459-4).

Referência: Treating drug dependence with the aid of ibogaine: a retrospective study. Schenberg, Comis, Chaves e Silveira, Journal of Psychopharmacology, 2014. DOI:

 

doar

eduardo schenberg

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